Adaptação Impossível: a transição da experiência de um jogo de corrida para uma narrativa cinematográfica

Foto: Jesse Zheng/Pexels

Transformar um jogo de corrida em um longa-metragem sempre foi uma tarefa espinhosa em Hollywood. Quando não há um protagonista definido, uma história linear ou um universo ficcional estruturado, o roteirista precisa começar praticamente do zero. É por isso que o need for speed filme, lançado em 2014, sempre foi visto como um caso curioso entre as adaptações de games: ele tenta levar às telas não apenas carros velozes, mas a sensação, a energia e a estética de uma franquia que, por natureza, nunca foi narrativa. E, surpreendentemente, essa dificuldade acabou se tornando o que há de mais interessante na adaptação.

O desafio de adaptar um jogo que nunca teve “história”

Diferentemente de séries como The Last of Us, Uncharted ou até Assassin’s Creed, Need for Speed nunca contou com uma trama central. A franquia, que existe desde 1994 e já passou por dezenas de variações, sempre foi movida pela adrenalina das corridas, pela cultura automotiva e pela possibilidade de personalizar veículos. O “enredo”, quando existia, era apenas um pano de fundo para justificar disputas, fugas e perseguições.

Para transformar isso em um longa, foi necessário criar uma narrativa completamente original. Os roteiristas optaram por uma história clássica de rivalidade e vingança, protagonizada por Aaron Paul (no período pós-Breaking Bad). A decisão fez sentido: a ausência de uma mitologia própria dava liberdade para construir personagens novos, mas ainda assim reconhecíveis para quem acompanhava a série de jogos.

O protagonista Toby, o antagonista Dino Brewster e a jornada de reparação moral são, essencialmente, arquétipos. E tudo bem — em um filme de carros, arquétipos funcionam. Eles colocam a trama em movimento e deixam espaço para aquilo que realmente importa: o espetáculo automotivo.

Entre jogos e cinema: traduzindo uma experiência que não é narrativa

O ponto mais delicado da adaptação era converter o ritmo dos jogos em uma linguagem que fizesse sentido no cinema. A solução do diretor Scott Waugh foi mirar no realismo.

Em vez de recorrer totalmente ao CGI, a produção optou por filmar manobras reais, usando acrobacias de dublês e câmeras montadas diretamente nos carros. A abordagem dá personalidade ao filme: é possível sentir o peso dos veículos, o impacto das colisões e a velocidade crua de cada perseguição. Não é incomum que espectadores elogiem justamente essa escolha, que aproxima o longa muito mais do estilo de Vanishing Point (1971) do que dos blockbusters altamente digitalizados de hoje.

Esse compromisso com o realismo também ajuda a criar conexões com os fãs da franquia. Nos jogos, a sensação de controle e a proximidade com o carro fazem parte do apelo principal e, no longa, isso foi traduzido com tomadas baixas, motores reais e corridas filmadas em estradas abertas.

Referências discretas, mas presentes

Mesmo criando uma narrativa nova, o filme incorpora elementos reconhecíveis da série:

  • Corridas clandestinas em ruas e estradas, um dos pilares clássicos dos títulos da era Underground.
  • Perseguições policiais que remetem diretamente aos jogos Hot Pursuit.
  • Um “carro-herói” que funciona como extensão do protagonista — no caso, um Mustang Shelby GT500.
  • A corrida final De Leon, tratada quase como um “boss fight” cinematográfico.

Nada disso é adaptado literalmente, e sim reinterpretado para funcionar em outra mídia. Para quem conhece a franquia, são piscadas discretas, e para quem não conhece, apenas elementos funcionais dentro da narrativa.

Contexto da época: entre Velozes e Furiosos e a febre das adaptações

Outro fator que influencia essa adaptação é o momento em que ela foi lançada. Em 2014, Velozes e Furiosos já havia se transformado em uma das maiores franquias do cinema, o que aumentou a pressão sobre qualquer filme de carros. Need for Speed precisava equilibrar três expectativas diferentes:

  1. o fã do game, que queria referências e velocidade;
  2. o fã de filmes de ação, que buscava impacto visual;
  3. o espectador casual, que só queria entretenimento direto.

O resultado, embora não seja unanimidade entre críticos, acaba entregando bem mais do que muitas adaptações de jogos da época, especialmente por entender que a solução não era tentar copiar Velozes e Furiosos, mas criar uma estética própria.

E funciona como adaptação?

Depende do ponto de vista. Como cinema, o filme é simples, direto e previsível — mas consciente da sua proposta. Como adaptação, ele acerta ao não tentar “filmar” um jogo e, sim, reinterpretar um estilo. E esse talvez seja o maior mérito do filme do Need for Speed: ele assume que a franquia não tem uma história definitiva e transforma justamente essa ausência em liberdade criativa. Escolhe priorizar as corridas, o som dos motores e a sensação de velocidade em vez de tentar encaixar uma lore que nunca existiu.

O resultado é um longa que não reinventa o gênero, mas transforma um jogo essencialmente sensorial em algo que funciona no cinema, e que continua sendo lembrado como uma das adaptações de games mais honestas e diretas da última década.

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