CS:GO: Afinal, felps errou ao mudar de time?

*Todas as opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade do próprio autor e não representam, de forma alguma, a visão do The Clutch*

João Vasconcellos, ou, como é mais conhecido pela torcida brasileira, o felps, é um nome que provavelmente te faz resgatar boas lembranças. Substituto do lendário “fnx” na line da SK Gaming, o jovem prodígio tinha, logo no começo da sua promissora carreira, duas missões diferentes, porém, igualmente difíceis pela frente.

Primeiro, pegar o lugar de um dos mais icônicos jogadores brasileiros de Counter-Strike de todos os tempos e segundo, ajudar o time a não só se manter como um dos melhores do mundo, mas alcançar o tão desejado topo. Se nesse artigo irei refletir sobre as decisões que felps faz para sua carreira, e porque as fez, em nenhum momento teria direito de falar da skill do jogador de 24 anos.

A história você já conhece e se não, posso resumir rapidamente: felps esteve à altura do desafio. A SK passeou pelos melhores times do mundo em 2017, e mesmo não tendo ganhado nenhum Major, dominou a cena, terminando no tão disputado primeiro lugar no ranking do site da HLTV. Vale ressaltar que, ainda em 2015 e 2016, já tinha chamado a atenção como um jovem promissor, jogando pela Tempo Storm e Immortals, abocanhando alguns títulos no caminho.

Saída da SK Gaming

No que poderíamos considerar o que seria o auge da carreira de um jogador,  João Vasconcelos faz o que podemos chamar de primeira decisão difícil da sua carreira: a escolha por sair do então melhor time de Counter-Strike do mundo. Muitos disseram que era loucura, que ele estava jogando fora o sonho de milhares de adolescentes, que dariam tudo para estar em sua pele. Para piorar a opinião pública sobre sua decisão, o CS e a cena profissional passavam pelo seu primeiro grande “boom” de mídia no Brasil, antes mesmo de Gaules ser um nome famoso. Alavancado pela ótima fase do time brasileiro, cada vez mais pessoas começaram a acompanhar o jogo.

Sobre essa decisão, talvez não exista muito a se discutir. A saudade da família, que foi sua principal justificativa, nunca será uma desculpa ruim para nada. O grande amor do jogador pela sua avó é conhecido no cenário. Também, especular que o clima da gaming house não era dos melhores, algo já citado não só por felps, mas por outros jogadores, não seria uma grande maldade. Afinal, o substituto do entry fragger na SK, boltz, reclamou publicamente de certas divergências com alguns outros players.

Felps ainda reclamava do sacrifício que tinha que fazer em sua gameplay, já que seu estilo de jogo era muito parecido com o de fer. Fazia ali a primeira e única pausa da sua carreira, que não durou muito. Se juntou com fnx e montaram a tag Não Tem Como, uma experiência que não durou muito tempo devido aos maus resultados obtidos. A peregrinação então tomou conta de sua carreira, com passagens pela INTZ, MIBR e LG, até finalmente assinar com a BOOM no começo de 2020.

Dominação do cenário nacional

A história recente nos fez lembrar quem é o então “moleque zica” João “felps” Vasconcelos. E se você não o conhecia, você provavelmente conheceu. A BOOM dominou o cenário brasileiro, de modo que alguns poderiam chamar até de humilhante. Se a paiN algum dia foi considerada a Astralis brasileira, o ano de 2020 foi a troca do representante da metáfora. Rapidamente se percebeu que aquela lineup era muito grande para o nosso cenário, e então começaram as especulações sobre a mudança para o exterior.

Chegamos então até os dias de hoje. Em mais uma decisão que podemos
chamar de difícil, felps decide mudar de time, aceitando o convite de TACO para
assinar com a GODSENT. Antes mesmo disso acontecer, já havia saído da BOOM, que jogou algumas partidas com fer como stand-in. Tirando a surpresa da escolha da franquia (GODSENT, tipo, quem poderia imaginar?), muitas pessoas também disseram que isso seria uma escolha ruim. Afinal, ele era uma peça importante, se não a mais, para o até então imbatível time da BOOM.

MIBR sem felps

O substituto de felps na então agora MIBR, é danoco. O jogador, na data da escrita desse texto, se encontra com um rating de 0.94 e 75.3 de ADR no site da HLTV. Mesmo com essas estatísticas medianas, culpá-lo pelos maus resultados da MIBR, seria maldade. Afinal, até os seus companheiros de time são cientes que dominar o Brasil não significa, nem de longe, ser um time tier 1 mundial. Se pegarmos o melhor time ranqueado do Brasil conforme a DRAFT5, a 9Z, e consultarmos o seu ranking da HLTV, não encontraremos nem o mínimo, que seria a última posição. A 9Z, simplesmente, não tem um lugar no ranking.

Aceitar a difícil missão de se readaptar ao melhor CS do mundo pode se tornar mais difícil quando você perde um dos melhores jogadores do time, certo? A experiência de se jogar contra os melhores não é novidade para a maioria da atual line da MIBR. Yel e Chelo já haviam sido companheiros de equipe em uma versão da LG em 2016, que foi considerada promissora, tão quanto a Team One na mesma época, disputando constantemente campeonatos e classificatórios contra os melhores times do mundo. Boltz é vice-campeão de Major e conquistou alguns títulos com a SK. Foi também o 18º melhor jogador do mundo em 2017. Mas o mais experiente e vitorioso jogador deixa o time, deixando ali um espaço difícil de ser ocupado, até pelos melhores jogadores brasileiros em atuação.

Para dificultar um pouquinho mais a missão dos nossos heróis, o primeiro campeonato disputado não seria uma suave experiência de enfrentar times levemente mais fracos do cenário norte-americano. Para nossos bravos guerreiros, o primeiro jogo foi disputado com um dos melhores times do mundo da atualidade, a dinamarquesa Heroic. De lá para cá, apenas 2 vitórias foram anotadas para o time brasileiro. Mesmo com todos esses obstáculos, a sensação que fica, com todo respeito a danoco, que recebeu uma bela de uma bola na fogueira, é que o hype da MIBR se foi embora com o felps. Não só pela habilidade do jogador, reconhecida internacionalmente, mas também por aquela sensação de nostalgia, misturada com a confiança que o time passava. Um time sólido, agressivo, experiente e ao mesmo tempo jovem, com uma história escrita, mas ainda muito mais para se escrever.

Danoco está no começo da sua carreira e acredito que para o sucesso desta line em águas internacionais, a bagagem de felps era necessária. Quando analisamos pelo lado da MIBR, poderíamos dizer sim que felps errou ao trocar de line, mas bem, toda história tem dois lados certo? E o outro lado?

GODSENT e um novo caminho

A GODSENT estreou no começo de fevereiro, em um campeonato de tier 2-3 do cenário europeu e CIS, como é conhecido os países que eram da União Soviética e também a própria Rússia. Penso que seja errado julgar mal a estreia com derrota, para o até então quase desconhecido Lyngby Vikings, um time que conta com NaToSaphix no elenco, outro prodígio dinamarquês, ex-Heroic. Tanto que após essa derrota, o time engatou em uma sequência de quatro vitórias consecutivas, que só foram freadas pela Gambit, um time jovem porém já consolidado e que vem sendo
apontado como uma grande promessa para o futuro.

E agora entramos no ponto chave, o que eu considero o grande “pulo do gato” de felps. Talvez, na realidade, a melhor decisão que já tomou para sua carreira. Eu não posso afirmar que um certo rancor com a MIBR também o influenciou a não assinar com a franquia, mas felps se livrou, conscientemente ou não, de muito mais do que isso. Primeiro, preciso ser sincero. É difícil de desconciliar a recente imagem de fracasso que a MIBR adquiriu, independentemente de quais jogadores estiverem vestindo a camisa. Depois de várias trocas de elenco e uma quantidade enorme de players e outros profissionais revelando “podres” internos da organização, cada vez mais o brasileirinho vem perdendo a sensação de afinidade pelo time.

Segundo, o caminho a ser percorrido pela MIBR é muito mais árduo do que o da GODSENT, mesmo que não pareça. Enfrentar a NAVI em um dos seus primeiros jogos, após alguns anos sem jogar fora do país, é muito mais difícil do que treinar e entrosar de um jeito mais descontraído com alguns times do tier 2 e 3 da Europa. Talvez felps tenha enxergado esse peso, e não quis reviver os tempos em que a pressão psicológica foi um fator que o fez até se afastar do jogo.

Longe de todo o hype, cercado de jogadores jovens e habilidosos, liderados por um dos mais vitoriosos jogadores de Counter-Strike do mundo (se você discorda, uma rápida pesquisa na internet pode mudar sua mente), felps busca voltar ao topo de uma maneira mais tranquila. Não podemos negar também que é um projeto audacioso. Em breve teremos oportunidade de analisá-la melhor: o próximo campeonato da GODSENT será no começo de março. De qualquer modo, felps acerta ao tentar construir algo longe de toda pressão que já conhece, inserido ainda em um dos atuais melhores cenários do mundo, o CIS. E por isso, desejo tudo de melhor na carreira do jovem João, um dos melhores players que já tive o prazer de assistir.

8 COMENTÁRIOS

  1. Felps além do supra citado, mudou a forma de jogar CSGO, suas marotagens na smoke mudaram a dinâmica do jogo. É só observar como os players jogam com as smokes hoje em dia. Felps fazia isso a 4 anos atras! Belo texto! Parabéns!

  2. Achei rasgação de seda, mas tenho que concordar com o texto que o felps é um jogador atípico e muito habilidoso.
    Parabéns pelo texto.
    Da para perceber a sua paixão pelo CS:GO na forma que escreve.

  3. Felps é um excelente player, porém tem decisões questionáveis. Boa sorte pra ele na carreira e que de tudo certo para ele e para o brasileirinho.

    Excelente texto!

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