[Opinião] Ligas Femininas não devem ser a jornada final para as mulheres nos esports

O Girl Gamer Festival é o principal evento feminino de esports do mundo. Créditos: Girl Gamer Festival

Recentemente ficamos sabendo que a Riot Games está com um planejamento maciço e bem sério para promover uma liga feminina de VALORANT. Isso porque o jogo é recente e o cenário competitivo está começando a ser criado. 

Sendo assim, é muito mais fácil planejar e dar as oportunidades de forma igual: tanto para profissionais mulheres, quanto para homens. Além disso, antes mesmo de termos um cenário profissional mundial, muitas streamers e apaixonadas por FPS surgiram fazendo conteúdo de VALORANT. 

Entre todos os esports, certamente VALORANT foi o que conquistou muitas mulheres e abriu portas para que a Riot Games enxergasse a oportunidade de fazer as coisas certas do início. 

Créditos: Riot Games

É muito mais difícil, por exemplo, criar times competitivos e contratar mulheres em um jogo já dominado por homens e que está no mercado há mais de 10 anos, como acontece com League of Legends. 

Entre as grandes barreiras estão tentar evitar que comparem com a “liga masculina” (que no papel até hoje é misto, mas que de misto não tem nada), para que as mulheres recebam os mesmos salários e tenham as mesmas condições de estrutura para treinar e crescer dentro das organizações, assim como para que sejam respeitadas por toda a sociedade. 

É muito investimento, paciência e necessidade de educar um público que ainda assedia, que ainda ataca e inferioriza a mulher de várias maneiras (porém tem gente que jura de pé junto que é igualitário).

Apesar da conquista no VALORANT, eu, como mulher, jornalista e que ama joguinhos, não acho que o caminho mais ideal seja fazer as ligas femininas. E vou explicar. 

Sempre estivemos aqui

Os esports cresceram e foram criados majoritariamente por homens, desde o desenvolvimento dos jogos até organização dos campeonatos. Isso desde Starcraft. Todos nós já estamos cansados de saber disso. 

World of Warcraft, que deu início a muitas ideias de jogos com um cenário competitivo profissional, sempre teve jogadoras mulheres. De fato sempre fomos mais discretas e procurávamos jogar mesmo com amigos confiáveis. 

Não à toa que os jogos seguintes, como League of Legends e Dota 2, também sempre tiveram mulheres. Essa fórmula se repete em Counter Strike: Global Offensive, Free Fire, Fortnite, Rainbow Six Siege e tantos outros. No entanto parece que só nos últimos anos que nosso espaço está mais consolidado. 

Há mulheres streamers em organizações grandes, mulheres CEOs de times (vide Black Dragons e Vorax), mais mulheres extremamente competentes nas empresas desenvolvedoras, assim como jornalistas e criadoras de conteúdo. A lista não é nem um pouco pequena. 

No competitivo

E seria injusto da minha parte dizer que não há competição com mulheres, pois há. Há no League of Legends (ainda que seja bem mais discreto do que outros esports), há o Circuito Feminino de R6 e há times e campeonatos femininos de CS:GO. 

A Fury foi a grande campeã do Circuito Feminino de R6, desbancado a tricampeã Black Dragons. Créditos: Ubisoft/R6

Entre todos, a Ubisoft que tem dado mais chance para as mulheres mostrarem seu trabalho no competitivo. Os campeonatos são transmitidos nos canais oficiais de R6 e narrados pelos menos profissionais que narram o Brasileirão com times masculinos. 

O tal do time misto

A grande questão de todo o debate sobre separar campeonatos femininos de masculinos é que, no papel, não deveria ser assim. Desde sempre os times tiveram a liberdade de fazer suas contratações independente de gênero. 

Não há uma regra em nenhum dos campeonatos de esports que proíbam times mistos. Acontece que na prática nunca tivemos um exemplo para testar e usar como referência. 

Em League of Legends mesmo, tivemos poucos jogos da Mayumi na INTZ na Superliga ABCDE de 2019, mas não é uma liga produzida pela Riot Games, portanto, não conta como oficial. 

A Mayumi saiu da INTZ um tempo depois da Superliga ABCDE e hoje streama League of Legends na Twitch. Créditos: Saymon Sampaio/BBL

Oficialmente tivemos um único jogo com uma mulher: a Harumi na Rensga, no Circuito Desafiante de 2020. No último jogo do campeonato, pra deixar claro, o que significa que tudo bem se eles perderem, não há mais o que fazer no campeonato, então o peso é diferente.

E pior, a separação por gênero não trouxe tantas vitórias assim para as mulheres. O Circuito Feminino de R6 mesmo é amador. Não é um campeonato que tem toda a estrutura de um Brasileirão e sequer investimento de um.

Harumi continua na Rensga como suporte, e o time estará no CBLOL de franquias em 2021, então há uma chance real de vermos uma mulher jogar no time misto. Créditos: Rensga Esports

O Circuito Feminino não é Brasileiro, há times de diversos países, e mesmo fora do Brasil, as mulheres entendem o quão complicado é sobreviver nos esports, pois não se sabe o que será do futuro.

As meninas não possuem grande confiança no cenário pois não sabem se podem de fato trabalhar com isso, os salários e o empenho das organizações são colossalmente diferentes para com a dos homens. 

Isso se repete em CS:GO. O esforço para que os times, campeonatos e as profissionais sejam ao menos notadas é muito superior a qualquer campeonato comum com 100% de presença masculina. 

A segregação é tão clara e tão cheia de machismo. É descarado como as empresas no geral não acreditam no potencial das mulheres, simplesmente por serem mulheres. Portanto, não existe essa de apostar na carreira das minas, só homens recebem esse “privilégio”. 

O ambiente tóxico para mulheres

Vocês devem lembrar do caso da Ace Picks, que ganhou um jogo contra a Black Dragons no First Strike, campeonato de VALORANT, no mês de outubro. Foox, um dos jogadores da BD simplesmente apareceu em uma live dizendo: 

“Eu tô perdendo pra mina de VALORANT, fazendo 14/25. Tu acha que eu vou entrar pra esse cenário de VALORANT? Na put* que pariu!”

Claro que o jogador foi demitido da Black Dragons (olha onde o cara trabalhava e foi falar o que falou, para vocês verem como o negócio é enraizado) e ainda expulso do campeonato pela Riot Games. 

Esse episódio não foi o único. São acontecimentos incessantes. Se há alguma mistura de gêneros em um esport, a corda sempre arrebenta para as mulheres. Ela pode errar ou acertar, mas é ela que vai sofrer agressão verbal, deboche, assédio e outras coisas. 

A nota da BD neste caso do fooX é um tapa na cara, pois é a grande realidade do que as mulheres passam no meio competitivo. 

Em League of Legends

Recentemente também aconteceu algo bem desconfortável com a Cute, streamer de LoL da Twitch, que é famosa e faz lives com frequência. Ela chegou a jogar com o brTT na SoloQ e acabou desabafando o caso no Twitter. De forma séria, sem ataques, sem encontrar um culpado, sem apontar dedo pro brTT. 

https://twitter.com/cutezinea/status/1333142172972015619

Ela só ficou indignada que apareceu muita gente depois do caso falar “você viu o rage que o brTT deu em você em live?” Porque é isso: um erro de uma mulher é muito mais cobrado do que qualquer outro jogador. 

Tiltar, bater na mesa, transferir a culpa, sempre reclamar do companheiro e salientar erros já são atitudes que podem trazer gatilhos diversos. Uma pessoa tem sentimentos. Mulheres no geral sempre foram colocadas como submissas, frágeis, pessoas que têm que engolir todas os xingamentos do mundo sem retrucar, porque se retrucar, o hate e rage serão piores. 

E mesmo a Cute vindo a público explicar mais uma vez que não atacou e não quer ninguém atacando o brTT, ainda fica aquele engasgo na comunidade, como se tivesse tudo bem um pro-player se irritar e isso resvalar na comunidade tóxica, que assedia e não para de cobrar uma mulher. 

https://twitter.com/cutezinea/status/1333274995083055105

Portanto, é frustrante acabar participando desses ambientes mistos em que sempre vão apontar dedo pra mulher. Ainda que a intenção do brTT fosse apenas dizer “ela como suporte não protegeu ali e podia ter protegido”, o modo acintoso e de demonstrar essa insatisfação já bastam. 

Só isso, algo simples assim bastou para que uma horda de homens atacassem a Cute. Não foram só farpas e ataques contra sua gameplay, chegaram a dizer que não tinha nada demais dar rage e dizer que ela não fez o trabalho dela, e exatamente por isso ela não devia estar twittando. 

Silenciar mulheres

Esses casos todos só mostram como um grupo não quer ver mulher se manifestar, ou levantar uma reflexão quanto aos males de atitudes que podem atrapalhar a autoestima, segurança e psicológico das pessoas (não só de mulheres). 

Não existe vitória em um ambiente que sempre vai lembrar que a mulher errou, que fez cagada, que não trouxe a vitória, que irritou um pro-player e similares. E mesmo quando alguma influencer fez de fato algo estúpido e questionável, as discussões tomam outro rumo e o problema em si fica lá, sem resolução (cof cof rerun na Twitch). 

Mas ainda assim, mesmo nesse ambiente tóxico, nenhum campeonato feminino fez essa realidade melhorar. 

Ainda são campeonatos vistos como inferiores, que não recebem atenção do público, que há deboches e ataques quanto ao nível profissional e do caráter das jogadoras, entre várias outras picuinhas. 

O jogo em si só com mulheres ajuda as profissionais a ficarem focadas somente na partida, sem se preocupar com esporro, risadas e deboches. Mas é só sair do campeonato que o mesmo inferno está lá esperando.

Um longo caminho pela frente

A liga feminina de VALORANT planejada do início ao fim pela própria Riot Games pode até trazer uma nova forma de ver esse cenário, afinal, é uma construção diferente de todas as outras ligas. 

As ligas femininas de VALORANT seriam globais, e a própria Cloud 9 já tem um time feminino. Créditos: Cloud9

Eu e todas as mulheres do cenário estamos ansiosas para ver o que será entregue e se o tratamento será igualitário. Mesma quantidade de times, mesmas regras de uma liga profissional, mesmos salários, mesmas estruturas de times, uniformes, condições tecnológicas para transmissão, entre outros detalhes. 

O crescimento sólido e bem consolidado de VALORANT pode ser exemplo para todos os outros esports. Mas, ainda fica aquela ponta de tristeza que, pra começo de conversa, nem deveria ser assim.

Lutar pelos mesmos direitos é só o básico. Receber o mesmo tratamento, carinho, torcida, valorização é o mínimo. É a obrigação. Mas o universo de “times mistos” não faz nem esforço para isso mudar. 

Esporte tradicional x Esports

Diferente de um esporte tradicional, como vôlei, basquete e futebol, que é mais fácil entender a separação por gênero, nos esports essa segregação é só idiota. Para preservar fisicamente gêneros diferentes, é mais inteligente separar no esporte tradicional, o que também não impede que mini torneios e jogos especiais mistos pudessem ocorrer durante o ano. 

Nos esports, no entanto, não há um projeto de médio a longo prazo para resolver essa segregação, pois já é permitido times mistos desde sempre, só não é praticado. 

As empresas, times e patrocinados apenas empurram o problema pra baixo do tapete e discursam que a solução está nas ligas femininas. É como encontrar uma “zona de conforto no meio de uma crise”. 

Fora do ambiente competitivo temos mulheres ao redor do mundo que trabalham com homens. São casters, comentaristas, analistas, estão em equipes de marketing, criação de conteúdo, programação. Em todas essas áreas o ambiente está bem mais convidativo e respeitoso (o que não significa que é perfeito). 

O time de conteúdo e cobertura de VALORANT, já em seu nascimento na Riot Games Brasil, já possui 2 mulheres: Evelynn Mackus e Letícia Motta. É algo completamente novo e único.

Porém, não existe solução se não há consciência social, cultural e comportamental vinda da ala majoritária, ou seja, homens. O mais correto, justo e igualitário era seguir o que tá no papel e nas regras dos campeonatos: contratar mulheres para times mistos. 

E encarar o problema de frente, educando, informando, quebrando correntes. Afinal, estivemos sempre aqui. Sempre jogamos contra homens, não é a liga feminina que vai mudar esse fato.

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